domingo, 6 de outubro de 2013

Nas asas da sorte

Oi gente!

Como prometido, vou mostrar pra vocês meu texto baseado no conto "Natal Na Barca", também da maravilhosa Lygia Fagundes Telles, cujo sucesso já mencionei numa publicação anterior. O terceiro, para ser mais exata! Eu gostei, mas tirei 7,5... Ah, mas quem sabe, né?

Nas asas da sorte

E ali eu me encontrava, na barca calma e sóbria. Quem dera eu me sentisse como a barca naquele momento de aflição. Eu observava a mulher, a poucos metros de distância, e por mais que eu tentasse desviar meu olhar do dela, a única coisa que ocupava a minha mente era uma pergunta: e se ela descobrir?

Foi então que, focando na paisagem atrás da moça, que ainda permanecia no meu campo de visão, enxerguei o cais. Meu coração, nessa altura do campeonato, estava a mil batimentos por minuto. Minha mente, transtornada pela minha indagação constante. Deus, ela não pode descobrir.

E o meu medo agora se alastrava por todo o meu corpo: minhas mãos suavam, minhas pernas chacoalhavam, minha mandíbula se tensionava e minha face corava. E tive pavor de que os passageiros da barca (que, para mim, estavam reduzidos a um simples "ela") começassem a perceber, pois sempre tenho a sensação de que todos os seres desse miserável planeta têm acesso aos meus estranhos pensamentos. E como que para agravar a tontura que me tomava, a barca agora enfrentava ondas, mais bruscas e desconcertantes.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma longa curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

- Chegamos!... Ei, chegamos!

E então, para o meu desalento, pensei que agora estava voando nas asas da sorte, que, como era de se esperar, me deixaria cair num profundo e infinito buraco. Apressei-me para ser o primeiro passageiro a deixar a barca, e quando apoiei o corpo em terra firme, ouvi. Ouvi aquele grito, agudo, feminino, de terror e indignação, que certamente poderia ser ouvido a quilômetros de distância, que ecoaria em minha mente para sempre: ela descobrira.


Bom, gente... Espero que vocês tenham gostado!
Beijooo

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