Como prometido, vou mostrar pra vocês meu texto baseado no conto "Natal Na Barca", também da maravilhosa Lygia Fagundes Telles, cujo sucesso já mencionei numa publicação anterior. O terceiro, para ser mais exata! Eu gostei, mas tirei 7,5... Ah, mas quem sabe, né?
Nas asas da sorte
E ali eu me encontrava, na barca calma e sóbria. Quem dera eu me sentisse como a barca naquele momento de aflição. Eu observava a mulher, a poucos metros de distância, e por mais que eu tentasse desviar meu olhar do dela, a única coisa que ocupava a minha mente era uma pergunta: e se ela descobrir?
Foi então que, focando na paisagem atrás da moça, que ainda permanecia no meu campo de visão, enxerguei o cais. Meu coração, nessa altura do campeonato, estava a mil batimentos por minuto. Minha mente, transtornada pela minha indagação constante. Deus, ela não pode descobrir.
E o meu medo agora se alastrava por todo o meu corpo: minhas mãos suavam, minhas pernas chacoalhavam, minha mandíbula se tensionava e minha face corava. E tive pavor de que os passageiros da barca (que, para mim, estavam reduzidos a um simples "ela") começassem a perceber, pois sempre tenho a sensação de que todos os seres desse miserável planeta têm acesso aos meus estranhos pensamentos. E como que para agravar a tontura que me tomava, a barca agora enfrentava ondas, mais bruscas e desconcertantes.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma longa curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:
- Chegamos!... Ei, chegamos!
E então, para o meu desalento, pensei que agora estava voando nas asas da sorte, que, como era de se esperar, me deixaria cair num profundo e infinito buraco. Apressei-me para ser o primeiro passageiro a deixar a barca, e quando apoiei o corpo em terra firme, ouvi. Ouvi aquele grito, agudo, feminino, de terror e indignação, que certamente poderia ser ouvido a quilômetros de distância, que ecoaria em minha mente para sempre: ela descobrira.
Bom, gente... Espero que vocês tenham gostado!
Beijooo

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