domingo, 13 de outubro de 2013

Os Sapatos

Oi gente!

Bom, como prometido vou postar o conto que fiz com a minha amiga Giuliana Maruca, o qual foi premiado no Contando 2013. Se você leu o texto "Mariana", do Machado de Assis, perceberá que o comecinho é o mesmo. Tomara que vocês gostem!

Os Sapatos

Voltei de Europa depois de uma ausência de quinze anos. Era quanto bastava para vir achar muita coisa mudada. Alguns amigos tinham morrido, outros estavam casados, outros viúvos. Quatro ou cinco tinham-se feito homens públicos, e um deles acabava de ser ministro do Estado. Sobre todos eles pesavam quinze anos de desilusões e cansaço. Eu, entretanto, vinha tão moço como fora, não no rosto e nos cabelos, que começavam a esbranquecer, mas na alma e no coração que estavam em flor. Foi essa a vantagem que tirei das minhas constantes viagens. Não há decepções possíveis para um viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio. Mas deixemos essas filosofias inúteis.

Não são filosofias inúteis que nos levam a lugar algum. Muito pelo contrário, são as ações que realizamos que nos levam a conhecer as mais maravilhosas coisas do mundo. E a maneira pela qual aprendi essa lição foi a mais dolorosa e inesquecível de todas as maneiras para que o nosso mortal aprendizado floresça. Deixe-me contá-la, para que o prezado leitor nunca venha a repetir o meu desventurado feito.

Era outono, manhã fria e chuvosa na qual o orvalho mais parecia chorar, se acabando, do que simplesmente anunciar a chegada do tal outono. Não era de espantar a tamanha ferocidade com a qual o vento insistia em ventar, num ímpeto de arrancar as folhas das árvores, a fim de lançá-las em algum lugar longínquo qualquer. E foi naquela manhã o infeliz ocorrido.

Desde o dia em que comecei a trabalhar naquela empresa, lembro-me de ter que passar pela mesma calçada esburacada, que, ao se encontrar com outra calçada, formava uma esquina daquelas de filme, onde ocorrem os assaltos ou os espiões se escondem para investigar os criminosos. Diante dessa tal esquina, estendia-se uma simples e corriqueira faixa de pedestres, que, para mim, significava algo além de listras brancas cortando o calçamento. Foi ali que a vi.

Um rosto anguloso, emoldurado por uma cascata de cabelos castanhos ondulados, pertencente a um corpo esguio e perfeitamente estruturado desfilava tranquilamente pela faixa de pedestres, de um jeito tão feliz e despreocupado que até se equiparava ao andar de uma criança. E, Deus, como era bela! Minha atenção estava completamente voltada para a tal donzela, tanto que não acatei o que a senhora que caminhava ao meu lado dissera. Pedi que repetisse, e ela reafirmou, gentilmente:

- Cuidado, meu senhor. Seus sapatos estão desamarrados!

Agradeci sucintamente a cortesia, ansioso para pousar meus olhos nos da moça, que, para meu desalento, já não se encontrava mais na faixa de pedestres. Só então me lembrei de amarrar os sapatos. Mas... amarrá-los para quê?

E esse mesmo episódio repetiu-se todos os dias dali em diante. Meiga, avoada e alheia ao mundo, o perfume que ela exalava era como o frescor das flores que, com toda sua fragilidade, acaricia o corpo dos pássaros que por elas sobejam. Donzela de um ar tão jovial, que me fazia estremecer pés e mãos, fazendo formar-se em mim incontrolável timidez. Falar com ela? Era o que meu coração, já inteiramente apaixonado, me mandava fazer, porém estava impedido pelo temor intermitente que me tomava.

Certa manhã, como aquela da ventania que caracterizava o meu singelo outono, diante das listras brancas que enfeitavam o chão eu parei, me abaixando para amarrar os cadarços dos benditos sapatos dos quais todos tanto falavam, quando vi a garota em seu caminhar suave e abstraído. Amarrei meus sapatos com um nó de deixar marinheiro de queixo caído, e, quando voltei à posição ereta, vi a garota estirada no meio da faixa, com olhar infinito, distante. E ao seu lado um homem corpulento desarmonizava o ambiente, saindo de seu carro levemente amassado e bradando, exclamando por ajuda, enquanto eu olhava alucinada e desesperadamente nos olhos da moça, que nunca mais pestanejariam nem reluziriam em minha direção. Aquela cena caiu sobre mim como uma estaca de madeira maciça cairia sobre a cabeça de qualquer mortal, quebrando-me os pensamentos, a razão, a vontade e a capacidade de viver. Por quê? Por quê? Malditos sapatos! malditos os dias que passam sem pudor! Maldita a vergonha que me tomava! Maldita a razão que me fixava no chão, quando o certo era voar! Maldito o ser humano, que se deixa enclausurar pelos próprios temores, deixando passar tão perto de si, ao mesmo tempo que de forma tão inalcançável, o melhor da vida. Maldita a filosofia excessiva em lugar da conduta! Maldito seja eu, que por me deixar vencer pelo temor e palavras alheias, perdi a maior oportunidade da minha vida: deixar de cruzar com a garota na faixa, passando a caminhar ao seu lado, com seus dedos entrelaçados nos meus de um lado, e do outro meus dedos entrelaçados a dedinhos frágeis e recém-formados de uma criança. Foi então que eu disse adeus àquela esquina, àquelas listras brancas e à minha alma gêmea. Fui-me embora.

Bom, gente... É isso! Acho que foi a história mais tensa que eu já escrevi na minha vida, mas valeu a pena. Fico agora imaginando o que aconteceu com o moço depois...
Beijooo

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